O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu uma investigação nesta terça-feira (20) para apurar o vazamento de dados sigilosos do Smart Sampa , sistema de monitoramento com inteligência artificial (IA) da Prefeitura de São Paulo. Uma reportagem do UOL revelou que informações capazes de permitir o acesso indevido a mais de 58 mil câmeras ficaram expostas na internet por aproximadamente 11 meses. O Smart Sampa é utilizado pela gestão municipal para monitorar espaços públicos, identificar foragidos da Justiça por reconhecimento facial e localizar veículos roubados ou furtados. O programa reúne câmeras públicas e privadas e envia alertas às forças de segurança quando identifica possíveis ocorrências. A reportagem do UOL, assinada pelo jornalista Artur Rodrigues, encontrou informações de acesso à plataforma em um repositório público na internet. Entre os dados estavam 181 logins e senhas de usuários autorizados , além de informações de mais de 6 mil agentes de segurança. Após receber os questionamentos do veículo, a Prefeitura retirou os dados do ar, afastou um servidor suspeito de ser responsável pelo vazamento e anunciou medidas adicionais de proteção. A administração municipal, porém, nega que o episódio represente uma falha nos mecanismos de segurança do Smart Sampa. O que foi exposto no Smart Sampa? Para verificar a gravidade da exposição, o UOL utilizou informações disponíveis no repositório para criar, com auxílio de IA, uma interface capaz de acessar o sistema de monitoramento. O teste permitiu visualizar imagens de câmeras instaladas em ruas, creches, escolas, hospitais e unidades de atendimento a dependentes químicos . Em uma das verificações, realizada nos Campos Elíseos, na região central de São Paulo, a equipe conseguiu identificar e registrar seus próprios movimentos em oito câmeras vinculadas ao programa. A investigação também encontrou credenciais que permitiam entrar diretamente na plataforma da Sentinelx, empresa responsável pela tecnologia utilizada no Smart Sampa. Nesse ambiente, era possível pesquisar nomes, CPFs e placas de veículos, além de consultar boletins de ocorrência. O acesso testado pelo UOL não exigia autenticação em duas etapas, mecanismo que adiciona uma verificação à senha para impedir entradas não autorizadas. Outro problema foi identificado por um especialista em tecnologia consultado pelo veículo. Segundo a análise, algumas interfaces do sistema apresentavam fragilidades que poderiam permitir a inserção de registros falsos de reconhecimento facial e leitura de placas. Não há confirmação de que criminosos tenham explorado essas possibilidades ou inserido informações falsas. O risco, segundo especialistas ouvidos pelo UOL, é que pessoas não autorizadas possam utilizar dados e imagens de um sistema de segurança pública para acompanhar a movimentação de agentes, viaturas e cidadãos. Ministério Público investiga vazamento O Ministério Público de São Paulo abriu uma investigação sobre o vazamento de informações sigilosas do Smart Sampa, conforme revelou o g1 nesta terça-feira (20). A abertura da apuração acrescenta uma frente de investigação ao caso, que já era analisado internamente pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana (GCM). A investigação do MP-SP ocorre após a divulgação de informações que permitiam acessar imagens de locais sensíveis, incluindo escolas e unidades de saúde. A exposição também levantou questionamentos sobre os mecanismos de proteção dos dados e a fiscalização da plataforma contratada pela Prefeitura. A instauração do procedimento, por si só, não representa uma conclusão sobre a responsabilidade da administração municipal, dos fornecedores ou do servidor afastado. O que diz a Prefeitura? Em nota, a Prefeitura de São Paulo negou a existência de vulnerabilidades nos mecanismos de proteção do Smart Sampa e atribuiu o vazamento à conduta de um servidor público. Segundo a administração municipal, o funcionário foi identificado, afastado de suas funções e passou a ser investigado pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana. A gestão classifica o episódio como um ato criminoso e afirma que não houve uso indevido da plataforma. A Prefeitura também contesta a informação de que o repositório público continha senhas de acesso, conforme apontado pelo UOL. Após a denúncia, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana informou ter adotado medidas adicionais de proteção, incluindo senhas individuais e autenticação em dois fatores. O acesso também passou a exigir um código enviado por SMS para a criação de novas senhas. A gestão afirma que o Smart Sampa é fiscalizado pelo Tribunal de Contas do Município e conta com consultoria especializada em privacidade e governança de dados. Também declarou que o contrato prevê testes periódicos de segurança e correção de possíveis vulnerabilidades. Segundo os números divulgados pela Prefeitura, o programa já contribuiu para a captura de 3.628 foragidos da Justiça e para a localização de 284 pessoas desaparecidas. Quem é responsável pelo Smart Sampa? A exposição dos dados também trouxe questionamentos sobre a fiscalização do contrato de R$ 588 milhões firmado pela Prefeitura para a operação do sistema. O acordo, com duração prevista de cinco anos, foi firmado em 2023 com o Consórcio Smart City SP. A Sentinelx, responsável pela plataforma tecnológica, foi criada após a contratação original e passou a integrar formalmente o grupo posteriormente, substituindo a Camerite. De acordo com a revista Veja, o contrato determina que a empresa contratada adote medidas de segurança da informação, mantenha profissionais especializados e comunique ocorrências anormais em até 24 horas. O documento também prevê multas e outras penalidades em caso de descumprimento das obrigações. Até o momento, não há confirmação de aplicação de sanções contratuais em decorrência da exposição identificada pelo UOL. Outra questão envolve o funcionamento da inteligência artificial. Em resposta a um pedido feito pelo UOL por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), a Prefeitura informou que não possui acesso ao código-fonte, aos modelos de IA e aos dados utilizados para treinar os algoritmos da Sentinelx. O município também admitiu que não realiza auditorias independentes desses modelos, restringindo sua fiscalização à verificação do cumprimento dos requisitos técnicos contratados. Procurada pelo UOL, a Sentinelx não se manifestou sobre as descobertas da investigação. Smart Sampa já teve outros problemas A exposição de dados ocorre após outras controvérsias envolvendo o sistema de reconhecimento facial da Prefeitura de São Paulo, principalmente em relação a abordagens policiais equivocadas. Conforme dados dos relatórios de transparência municipais analisados pelo UOL, 268 pessoas foram conduzidas a delegacias e posteriormente liberadas entre novembro de 2024 e maio de 2026. O número representa 7,9% das aproximadamente 3.400 conduções realizadas no período. As liberações tiveram três causas principais: Um dos episódios aconteceu em janeiro de 2026, quando um entregador foi abordado enquanto acompanhava a companheira grávida em uma unidade de saúde na zona leste de São Paulo. Na ocasião, o sistema apontou uma semelhança de 97% entre seu rosto e o de um homem condenado por tráfico de drogas. O entregador acabou abordado duas vezes por agentes de segurança, apesar de não ser a pessoa procurada. Segundo o UOL, a Prefeitura e o governo estadual foram condenados a pagar uma indenização de R$ 10 mil ao homem. Outro caso ganhou repercussão em abril deste ano, quando o Metrópoles mostrou a situação de Ailton Alves de Sousa, morador de Heliópolis que havia sido conduzido repetidas vezes à delegacia por ser confundido com um homem procurado por homicídio em Mato Grosso. A confusão cadastral já havia provocado abordagens anteriores à implantação do Smart Sampa. Os problemas também foram objeto de uma pesquisa divulgada em fevereiro de 2026 pelo Laboratório de Políticas Públicas e Internet (LAPIN), pelo Instituto de Referência Negra Peregum e pela Rede Liberdade. O estudo questionou a transparência do programa e apontou riscos de abordagens indevidas, além de levantar preocupações sobre o uso de dados pessoais e possíveis desigualdades nas ações policiais. A Prefeitura, por sua vez, afirma que as identificações passam pela verificação de agentes de segurança. Em fevereiro de 2025, a gestão elevou de 90% para 92% o nível mínimo de similaridade facial necessário para disparar alertas, com o objetivo de reduzir identificações equivocadas.






