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Uma muralha feita de plantas, não de pedra

E se o maior deserto da China tivesse começado a perder a briga para um cinturão de arbustos? Os satélites já medem a resposta. ⬇️

Durante décadas, o deserto de Taklamakan foi tratado como um vazio biológico, um mar de dunas que engole estradas, rios e plantações. Em 28 de novembro de 2024, a China plantou o último trecho da Grande Muralha Verde que o cerca, com 3.046 km. Agora os satélites mostram o que essa barreira de vegetação já mudou no ar.

O que é essa nova muralha verde construída pela China?

É um cinturão de vegetação com 3.046 km que fecha o círculo em volta do deserto, na região de Xinjiang, no extremo oeste do país. A obra integra o Programa Florestal dos Três Nortes, lançado em 1978 e previsto até 2050. As autoridades chinesas o descrevem como o maior projeto de florestamento do mundo contra a desertificação.

O deserto ocupa 337.600 km², área parecida com a da Finlândia. Mais de 95% dessa superfície é areia em movimento. Em alguns pontos, as dunas avançavam de dois a três metros por ano sobre oásis, e a areia já enterrou estradas e lavouras.

Como plantas venceram as dunas do maior deserto chinês - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Como a China fechou o cerco ao Taklamakan em 46 anos?

A China levou 46 anos, de 1978 a 2024, para fechar o anel de plantas em torno do deserto. A linha do tempo abaixo mostra as etapas dessa muralha viva.

Linha do tempo do cinturão verde de Taklamakan

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1978 · A largada

A China lança o Programa Florestal dos Três Nortes, com plantio previsto até 2050.

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Fim de 2023 · 2.761 km

A faixa verde já liga oásis dispersos, e resta o trecho mais difícil, ao sul do deserto.

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28 de novembro de 2024 · 3.046 km

O último plantio, no condado de Yutian, fecha o círculo completo em torno do Taklamakan.

Fonte: agência Xinhua, 28/11/2024, com informações da administração florestal e de pastagens de Xinjiang.

O trecho final, de cerca de 285 km, cruza o sul do deserto, onde vento e areia são mais severos. Ali, equipes plantaram choupo-do-eufrates, saxaul e salgueiro-vermelho no condado de Yutian. Xinjiang promete seguir reforçando a faixa verde, segundo as autoridades locais.

Por que o cinturão verde já aparece em imagens de satélite?

Porque as plantas da borda emitem sinais que os instrumentos em órbita conseguem medir, e o efeito foi documentado em um estudo publicado na PNAS. A pesquisa cruzou 25 anos de dados de satélite com observações em solo, e os resultados aparecem em três frentes.

- Mais verde: o instrumento MODIS, da NASA, registrou aumento da fluorescência induzida pelo Sol, luz emitida durante a fotossíntese.

- Menos CO2: o satélite Orbiting Carbon Observatory detectou queda de cerca de 3 partes por milhão no ar da região, na estação chuvosa, de julho a setembro.

- Mesmo lugar, mesma época: as mudanças se concentram nas margens do deserto e coincidem no tempo com o programa de plantio.

O físico atmosférico King-Fai Li, da Universidade da Califórnia em Riverside, um dos autores, vê sinal positivo na possibilidade de medir a queda do espaço. Segundo a equipe, a borda do deserto já funciona como um sumidouro de carbono.

Satélites mostram a região de Xinjiang vista do espaço - Imagem: NASA, 2008.

Quais são os benefícios e os limites do plantio no deserto?

O plantio protege estradas e lavouras e retira carbono do ar, mas está longe de resolver sozinho a crise do clima. A lista abaixo separa o que a barreira de vegetação entrega do que ainda tem limite.

- Proteção: o cinturão ajuda a defender estradas, oásis e áreas agrícolas das tempestades de areia da primavera.

- Renda local: em Yutian, a recuperação de terras degradadas permitiu cultivar ervas medicinais chinesas.

- Carbono em escala modesta: com floresta no deserto inteiro, a absorção chegaria a cerca de 60 milhões de toneladas de CO2 por ano, frente a cerca de 40 bilhões emitidas no mundo.

- Interior intocado: o benefício vale para a borda, e o miolo do deserto continua sendo areia em movimento.

Ao longo das décadas, mais de 66 bilhões de árvores foram plantadas no norte do país, segundo a Live Science. Mesmo assim, especialistas ainda debatem se o Programa Florestal dos Três Nortes reduziu de fato a frequência das tempestades de areia.

O que a muralha viva da China ensina ao resto do mundo?

Ela ensina que a desertificação pode ser contida quando há paciência e planejamento. Foram 46 anos de plantio contínuo até o anel se fechar, e hoje o resultado aparece do espaço como um pequeno sumidouro de carbono. O efeito é modesto e concentrado na borda, mas serve de modelo para outras regiões áridas.

E você, acha que plantar contra o deserto vale o esforço? Conta pra mim nos comentários!