Aos 52 anos, atriz fala sobre o sucesso da vilã Pilar de 'Quem Ama Cuida', a maternidade, o diagnóstico da síndrome genética Li-Fraumeni, que aumenta muito o risco de desenvolver vários tipos de câncer ao longo da vida, e a nova relação com o próprio corpo e a saúde

Isabel Teixeira — Foto: Lucas Nogueira

Na pele da supervilã Pilar de Quem Ama Cuida, Isabel Teixeira encara uma rotina de gravações que começa cedo, atravessa diferentes núcleos da trama e, muitas vezes, termina à noite — e, ainda assim, fala sobre o trabalho com o entusiasmo de quem acaba de descobrir uma nova brincadeira. "Quando chego na maquiagem, já estou animadinha. Quando saio do figurino, já estou animada e, quando entro no set, já estou animadaça", conta a atriz, aos risos.

Tanta devoção ao trabalho, contudo, não é novidade na vida da paulistana, de 52 anos. Isabel passou décadas alternando teatro, viagens internacionais, produção, direção, edição e escrita. Mas ela admite que o cotidiano de uma novela das nove, com uma personagem que circula por tantos núcleos, é uma experiência particular.

"Para essa novela, a Amora [Mautner, diretora] e o Walcyr [Carrasco, autor] me prepararam. Ele falou que eu ia estar em vários núcleos e que isso ia acabar tendo uma imersão", lembra ela, que já está na quinta novela na Globo, tendo feito, até hoje, vários papéis de destaque, como a Jane de Amor de Mãe (2019), a Maria Bruaca, de Pantanal (2022), a Helena, de Elas por Elas (2023) e a Violeta de Volta por Cima (2024).

Isabel Teixeira usa casaco Maldito Paris — Foto: Lucas Nogueira

A preparação para a amargurada Pilar incluiu disciplina, estudo e uma ferramenta que acompanha a atriz em praticamente todos os trabalhos: os cadernos que ela mesma encaderna em sua editora, a Fora de Esquadro, que fica onde ela mora, em São Paulo. "Falei isso para eles [para os filhos Diego, de 22 anos, e Flora, de 15]: 'Eu vou morar dentro de uma editora. Eu sou protagonista disso aqui e vocês também'", afirma.

O sucesso de Pilar também provoca Isabel a pensar sobre o próprio ofício e o papel da novela na vida dos brasileiros. "A novela é uma série de acasos que não se explicam e ela tem um percurso muito dela mesma", opina, defendendo a ficção como espaço para o espectador se envolver, torcer, discordar e até xingar a vilã -- desde que a fronteira entre personagem e pessoa seja preservada.

Longe da ficção, Isabel também vive uma fase de reinvenção. Depois de descobrir que tem a síndrome genética de Li-Fraumeni, que aumenta muito o risco de desenvolver vários tipos de câncer ao longo da vida, passou a olhar para a saúde de outra forma, adotou mudanças de hábitos e realizou uma cirurgia preventiva nas mamas. "A minha vaidade está um pouco aí, no check-up anual, semestral que tenho que fazer. Está legal, está mostrando resultado e penso nisso", diz ela, que, ao ser questionada sobre o que a envaidece, responde que tem "vaidade celular". "Gosto de estar aqui com qualidade", explica ela, mãe de Diego, de 22, e Flora, de 15.

Entre uma gravação e outra, a atriz continua pensando no que virá depois da novela. Teatro, direção, editora, viagens e dois monólogos estão no horizonte. Há ainda um projeto afetivo: percorrer pequenas cidades brasileiras e levar espetáculos a teatros históricos. Porque, para Isabel, parar nunca esteve realmente nos planos. "Quero viajar para o Brasil, porque chamo de Brasil profundo, não como um Brasil escondido, o profundo no sentido poético do Brasil", planeja.

E, mesmo já imaginando a próxima etapa, ela admite que sentirá falta da rotina que hoje a faz chegar ao set "animadaça". "Quando eu voltei [ao ficar afastada entre Volta por Cima e Quem Ama Cuida], eu voltei assim: 'Vai começar tudo de novo, que delícia'. E é uma delícia, mesmo", comemora.

Isabel Teixeira usa casaco e saia Valentino no Txello Vintage, sapatos Maldito Paris e colares Atelier Chilaze — Foto: Lucas Nogueira

Leia a entrevista completa:

Você está gravando sem parar. Em algum momento se cansa dessa rotina de gravações?

Canso, mas hoje estou meio gripada. Eu me preparei muito para essa jornada, então tenho uns truques de disciplina. Gravo muito porque gravo em muitos núcleos diferentes, então a Pilar transita muito. Isso o Walcyr [Carrasco, autor da novela] já tinha falado desde o começo. Hoje, por exemplo, fiz uma frente. Mas, às vezes, faço duas. E aí, na segunda frente, fico até as nove da noite. Engraçado porque tenho a sensação que as pessoas não sabem disso [do trabalho que dá gravar uma cena]. Hoje estava fazendo uma cena que era uma entrada na clínica de estética, uma cena relativamente curta, ótima, inclusive, com três pessoas conversando, e eu entrava. Era uma cena só para eu passar. Grava a primeira parte da cena e depois a minha passagem, e eu falava assim: "Não precisa me acompanhar, não, que eu vou sozinha". E a gente tem que fazer três planos, tem toda uma coisa. Eu falei: "Nossa, as pessoas não têm noção que, às vezes, uma cena de passagem demora uma hora e meia para fazer".

"Quando comecei, há cinco anos, vislumbrei um pouco do que estou vivendo agora"

O que essa Isabel de hoje tem que a Isabel de anos atrás não tinha para viver esse fenômeno Pilar?

Noção de complexidade de como fazer novela real. Costumo brincar que paixão pega. Entrei no mundo das novelas em Amor de Mãe e vi uma pessoa apaixonada pelo que faz, que é a Adriana Esteves. Ela já tinha uma estrada de muitas protagonistas, de uma antagonista histórica, fazia novela há muitos anos, mas continuava muito apaixonada. Lembro dela falando assim: "Esse sábado me liberaram". E eu pensava: "Nossa, ela grava todo dia, o dia inteiro". Em Amor de Mãe, eu ainda estava escrevendo peça, viajando, fazendo muita coisa ao mesmo tempo, como sempre fiz. Gosto muito de trabalhar, mas não tinha experiência. Acho que, quando comecei, há cinco anos, vislumbrei um pouco do que estou vivendo agora, que é esse cotidiano. Para essa novela, a Amora [Mautner] e o Walcyr me prepararam. Ele falou que eu estaria em vários núcleos e que seria uma imersão. Não tive um susto de não voltar para São Paulo. Volto, no máximo, uma ou duas vezes por mês, para passar um ou dois dias. Tem esse negócio do trabalho diário, que é um pouco a minha relação com a vida. E tenho essa alegria porque lutei muito para fazer o que gosto. Foi muito difícil. Durante muito tempo, precisava conciliar trabalhos pela sobrevivência, pelo know-how técnico ou por que pagavam melhor. Hoje, realmente faço o que gosto.

Você gosta mesmo dessa rotina intensa!

Gosto! Agora voltei da gravação. Estava gravando desde manhãzinha, sendo que ontem fui a última a sair do estúdio… Adoro ser a última a sair do estúdio. Só fiquei para tirar a maquiagem. Desmontar a Pilar é difícil. E hoje acordei às seis da manhã para estar cedo lá. Eu meio que fiquei zonza. Acordei difícil e aí, quando vou indo para lá, já vou me animando. Quando chego na maquiagem, já estou animadinha. Quando saio do figurino, já estou animada e, quando entro no set, já estou animadaça (risos).

"O Murilo Benício falou para mim que eu parecia uma criança no parque de diversões com aquele passaporte da alegria. Meu lance sempre foi trabalhar muito"

Você ama o que faz, né?

Um amigo meu, o Murilo Benício, que falou isso para mim, que eu parecia uma criança no parque de diversões com aquele passaporte da alegria (risos). Porque gosto de gravar. O meu lance sempre foi trabalhar muito. Gosto de acordar para trabalhar. E mesmo quando não estou trabalhando, quando estou de férias, que não tenho há muito tempo… Passei 20 anos da minha vida emendando trabalhos. Nunca mais viajei, fiquei um mês fora. As crianças sempre me viram trabalhando. Sempre estive trabalhando.

Isabel Teixeira usa vestido Animale, sapatos Maldito Paris e casaco acervo do stylist — Foto: Lucas Nogueira

A que você atribui o sucesso de uma novela, de um personagem, como está sendo com a Pilar?

Tenho essa noção de que a novela nunca depende de uma pessoa só. A novela é uma série de acasos que não se explicam e ela tem um percurso muito dela mesma. Outro dia vi um post do Gilberto Braga falando dos sucessos e fracassos, e ele amava O Dono do Mundo. Eu também. Mas foi uma novela que ele teve que fazer várias concessões para ela pegar no tranco. Às vezes é uma novela incrível que não pega porque o Brasil não está pegando nela. E, às vezes, é uma novela simples que pega por uma questão inesperada. A gente tem uma novela agora [com Quem Ama Cuida] que vem de uma sequência de novelas das nove muito felizes. E elas não são iguais. Elas dão o que falar, cada uma à sua maneira. Para mim, é uma lufada de esperança em um Brasil que se une para ver novela como era na década de 80, e isso é muito bom para a nossa saúde mental enquanto população.

Você acha que a novela ganhou uma função ainda mais importante em tempos de tanta polarização?Sei que Pantanal foi assim. Pós-pandemia, uma novela totalmente brasileira. Acho que a gente estava precisando ouvir uma história do homem que vira cobra, da mulher que vira onça. Benedito Ruy Barbosa na veia. Lindamente conduzida pelo Bruno Luperi. Acho que ali foi um momento do Brasil. A gente vinha brigando muito desde 2018, em um país totalmente dividido, e Pantanal foi uma novela que fez a gente sentar com os nossos diferentes dentro de uma mesma família e comentar sobre a história. Acho que, de Pantanal para cá, sinto que a gente perdeu um pouco o filtro e a elegância nas redes. O insulto está livre. Acho muito legal esse poder da internet, que realmente socializa, dá voz. Gosto disso. Mas, ao mesmo tempo, tem o outro lado, que fez com que a gente liberasse o insulto.

"Sinto que a gente perdeu um pouco o filtro e a elegância nas redes. O insulto está livre"

Teve algo que te chocou nesse sentido?

Foi muito chocante para mim, no início do ano, uma matéria que assisti no Fantástico, que o cara cortou o cabelo da menina errado e ela deu uma tesourada nele. A outra que o sanduíche veio errado e levou uma porrada. Uma briga de trânsito que escala para a morte. Um xingamento na internet que adoece as pessoas. Não quero demonizar a internet porque acho incrível essa ferramenta que a gente mal conhece. Acredito muito na humanidade, que a gente vai ficar totalmente adicto de scrollers e depois a gente vai se curar todo mundo junto. Sinto que a novela, por ser ficção, é feita para a gente comentar. É muito melhor você falar assim: "Por que a Adriana fez isso agora?", "Por que a Pilar não está fazendo isso?" "Mas olha ela, que cafona! Olha que desgraçada!"

Isabel Teixeira — Foto: Lucas Nogueira

A novela pode ser um alívio do estresse para as pessoas, né?

Acho que não é o ópio do povo, no nosso caso agora, e nem do jeito que poderia ser na década de 80. A novela não se dá mais como uma ferramenta de possível manipulação de uma população, de emburrecimento. Lembro que minha mãe falava assim: "Vai ficar aí vendo novela? Vai ficar burra". Sendo que, imagina! Eu estava vendo Dias Gomes, estava vendo dramaturgia, estava vendo uma história sendo contada. Eu, minha avó, minhas tias, meus primos, meus irmãos. Era tudo tão legal. Acho que hoje a gente também pode usar a novela como uma válvula de escape porque é ficção. E também olha o que está acontecendo.

E como você vê a repercussão de temas mais delicados abordados na novela?

Achei fortíssimo tudo o que aconteceu com o personagem do Mau Mau [João Victor Gonçalves], também a questão do abuso do Ademir [Dan Stulbach]. Eu vi o Dan falando lindamente sobre isso, que ele está estudando desde que os capítulos chegaram. Todo mundo com muito cuidado com esse tema. A Bruaca [de Pantanal] teve isso. Agora, a vilã é para a gente xingar, para a gente odiar. Ela é simbiótica com a mocinha. Mas a novela é a trajetória da mocinha atrapalhada pela vilã o tempo inteiro. A vilã faz nós para a mocinha desfazer, e vamos indo para frente. Eu falo assim: hoje em dia, eu gosto de ter dias belos e úteis, como diz o Bertolt Brecht.
Como seria um dia belo e útil para você?
Às vezes é lançar um olhar em um livro que você ama, com o rosto lavado de manhã… Isso já é um dia útil para você porque você está vivo. Ou escutar uma música, se vestir para tomar um chá lá embaixo antes de pegar pesado no trabalho. Mas é muito difícil ter isso. Então, em um dia sofrido, às vezes, que você tem que ficar duas horas no BRT… Aí você chega em casa com uma felicidade que você fala: "Agora vou tomar banho e vou ver minha novela". E aí você xinga a Pilar e fala: "Porra, está errado isso!" Não é maravilhoso? (risos)
Você está amando ser odiada?
Estou a serviço de uma personagem de teledramaturgia que tem essa função. Se eu fosse a mocinha, eu estaria em outra função. Eu sirvo ao gênero, esse é o meu trabalho. Então, claro que estou amando ser odiada porque essa é a função dramática da vilã.
"Vilã é para a gente xingar, para a gente odiar. Estou amando ser odiada"
Você tem cadernos exclusivos para cada personagem. Como eles ajudam na construção?
Eu não vivo muito sem eles. Outro dia entrei no Instagram da editora e tinha assim: "Poxa, eu quero comprar seus cadernos". Mas eu não vendo meus cadernos (risos). Porque fiz um ateliê de encadernação dentro da minha casa para fazer os meus cadernos, os meus diários, porque tenho muitos. E a escrita, para mim, a criação, começa na encadernação. Então, esse caderno eu que fiz.
Isabel Teixeira usa kimono e sutiã acervo do stylist — Foto: Lucas Nogueira
Como é o caderno da Pilar?
Eu escolhi uma textura para ele, a cor, a lombada, o que vem dentro. Tudo isso que fiz em ateliê já estava pensando na novela. É técnica. Fiz anos de encadernação. Fazer o caderno já é estar escrevendo e compondo. Esse tem essa cara porque, na minha cabeça, tinha uma lógica: o vermelho como elemento, o preto. Tem toda uma viagem que é minha e que curto pensar e fazer. Ele começa com estudos da Pilar, conversas com a Amora, com o Walcyr, com a Claudia [Souto, autora], referências de caracterização e figurino. Depois, vou dividindo por cores, colocando bloco, capítulo e cenas. Vou pintando o que já foi gravado e o que ainda não foi. Para mim, é um mapa, porque a novela é muito extensa e obra aberta é bem diferente. Tenho uma disciplina férrea de estudo. Recebo o bloco, leio tudo, fotografo minhas cenas e imprimo. Trago impressora e encadernadora para o Rio. Marco o que vou gravar na semana e estudo na linha do tempo. Sempre sei para onde vou e de onde venho.
Você guarda esses cadernos?
Minha casa é isso. Guardo todos. Fui conquistando meu espaço ao longo da vida, sendo mãe, tendo casado duas vezes, administrando as casas. A Virginia Woolf fala uma coisa linda: uma mulher tem que ter um teto todo seu e dinheiro para pagar as próprias contas. Ela escreveu isso no século passado e ainda é uma realidade. No meu apartamento em São Paulo, dividi ele em duas partes. Uma é a editora, onde trabalho, e a outra é mais dos meus filhos. Não tenho só uma mesa, tenho uma sala inteira para trabalhar. Falei para eles: "Eu vou morar dentro de uma editora. Eu sou protagonista disso aqui e vocês também". É uma casa meio comercial, meio residencial, que se movimenta comigo.
Você passou um período trabalhando fora do Brasil. Como foi conciliar isso com a maternidade?
Nunca deixei de estar aqui. Sempre em São Paulo, no mesmo bairro. Comecei a trabalhar fora em 2007, indo e vindo. Fiz todo o circuito europeu com Enrique Diaz até 2012. Às vezes, ficava um mês, um mês e meio fora, voltava e depois viajava novamente. Quando esse trabalho terminou, comecei imediatamente com a Christiane Jatahy e voltei a fazer o circuito europeu com duas peças. Cheguei a morar na França, contratada pelo Odéon para uma peça dela, mas sempre mantive minha casa em São Paulo e continuei trabalhando em várias outras coisas.
E como seus filhos lidavam com essa rotina?
Eles se acostumaram a ficar um mês longe de mim, mas eu administrava tudo daqui. Muitas vezes, foram comigo nas férias. Tenho dois filhos com o mesmo ex-marido [o fotojornalista Roberto Setton, de 61 anos], que sempre me deu muito apoio. Quando fui para a França, minha filha foi comigo e meu filho, que tinha 14 anos, preferiu ficar indo e vindo. Lembro da primeira viagem internacional que ele fez sozinho, ainda menor de idade. Ele postou: "É muito estranho viajar sozinho e muito legal". Hoje, ele tem 22 anos e é um viajante. Fez universidade nos Estados Unidos e agora está na Coreia, fazendo mestrado em relações internacionais, porque o lance dele é política asiática. Acho que isso tem a ver com a vida que tivemos, sempre indo e voltando. Eu dizia: "A gente está sempre perto. Família é isso". Ele sempre me viu trabalhando e voltando, e acho que isso deu muita coragem a ele. Ele não quer ter pouso, parece uma coisa meio de diplomata, que pensa mundialmente: 'vou ficar um tempo aqui, um tempo ali'. Fala várias línguas.
Você já sentiu culpa por essa escolha profissional?
Eu nunca tive culpa, sabe? Eu sentia, às vezes, que tinha um olhar sobre o jeito que eu administrava a profissão e a família, inclusive viajando.
Isabel Teixeira usa vestido Animale e casaco acervo do stylist — Foto: Lucas Nogueira
Você se sentia, de uma certa forma, julgada?
Não é julgada, não. Eu sinto que não é o normal, né? Várias vezes eu pensei: "Se eu fosse um homem… Ah, é. Seria mais fácil". Eu tenho sempre que me justificar. Eu tenho que me justificar e contar o que eu estava fazendo, como estou contando agora, inclusive. Tenho que contar como administrei meus filhos e a minha carreira nômade, fazendo o que gosto, quer dizer, trabalhando ininterruptamente. Não é normal hoje, em 2026. Não era normal para minha mãe, não era normal para minha avó.
"Eu tenho sempre que me justificar. Tenho que contar como administrei meus filhos e a minha carreira nômade, fazendo o que gosto"
Mas te incomoda abordar isso?
Para mim, hoje em dia, não é o meu tema. Não é meu tema porque a gente escreve com a nossa vida. O jeito que a gente vive é uma escrita, né? A escrita que fiz até agora é uma escrita que gosto muito e que tenho certeza que os meus filhos se orgulham e bebem muito nessa fonte. A Flora tem um desprendimento com ir e vir também. Agora, estou em uma fase que tenho duas casas [uma no Rio e outra em São Paulo]. Eu administro duas casas, o que demanda tempo. E tenho certeza agora que terei duas casas. Porque tenho que morar aqui no Rio também. E a Flora vai e vem agora sozinha. Fiz testes com ela. Vamos de ônibus, de ônibus leito, pega o avião sozinha, volta. Ela já está espertíssima. Para ela, São Paulo é um bairro do Rio e o Rio é um bairro de São Paulo.
Vocês têm uma relação muito boa, né?
A gente é muito parceira. Gosto de conversar com ela, mas sou a mãe dela também. Dou limite, mas gosto de trocar com ela. A gente troca muita figurinha. E com meu filho também, que é outro mundo. Ela gosta muito de teatro. Ficou trabalhando no Teatro de Contêiner, durante a época da crise de lá. Ela se envolveu muito com o pessoal de lá e tem muito interesse no fazer teatral. Estou muito ligada nesse pessoal de São Paulo também, e o Contêiner é um grupo que chega em uma região do fazer teatral que muito me interessa porque a hierarquia se faz pela necessidade. Não tem um diretor que é a cabeça. Eles são vários diretores e são sete atores, atrizes, que estão sempre se reorganizando. Então, em uma peça, tem uma pessoa que o barato dela faz com que ela concentre aquele tipo de trabalho, a outra pessoa, o outro tipo de trabalho. E a Flora foi meio se imbricando ali com eles e acompanha muito. Acho que isso é uma escola.
Como você lidou com a instabilidade financeira da profissão ao longo dos anos?
Sabia disso desde o começo. E por isso o preço é caro. Ao mesmo tempo, nunca fiquei sentada em uma cadeira esperando alguém me chamar. Sempre inventei. Brinco que não sou atriz de mercado porque inventei o meu mercado. E isso é concreto. Quero fazer uma peça? Tenho que ser produtora. Sou atriz e produtora, uma produtora de mim mesma. Ninguém mais vai querer trabalhar comigo? Faço uma peça. Tenho CNPJ, uma empresa que produz teatro e sei o caminho, embora ele esteja sempre mudando. No Brasil, o teatro sobrevive muito à falta. E isso é uma tragédia.
A vida inteira criei dois filhos assim. Não sou herdeira, não sou nepobaby. Meu pai [Renato Teixeira] é cantor, não é ator, e nunca abriu uma porta para mim porque nem saberia que porta abrir. A necessidade fez com que eu fosse uma multiartista, mas isso também sempre esteve em mim. Sou muito curiosa. A Zélia [Duncan] me chamou para dirigir o show dela. Eu não sabia dirigir show. Ela achou que eu poderia. E fui descobrir o que é, porque gosto de aprender, sou uma estudante. Criei meus dois filhos com o Roberto Setton, que é fotojornalista e também enfrentou muitas mudanças na profissão. Somos dois batalhadores sem medo. Mesmo quando a gente estava com a corda no pescoço, a gente levantava, trabalhava e inventava o que fazer. Inclusive, fiz muitas coisas com o meu ex-marido, de parceria, mesmo quando eu não era mais casada com ele, faço ainda.
"Não sou herdeira, não sou nepobaby. Meu pai [Renato Teixeira] é cantor, não é ator, e nunca abriu uma porta para mim porque nem saberia que porta abrir"
Isabel Teixeira usa vestido Martu — Foto: Lucas Nogueira
A relação de vocês continuou boa mesmo depois da separação, né?
Aconteceu com a gente. Acho que muito por isso, porque a gente era meio o zero da criação do que dizem que é uma família. A nossa família pegou o seu potencial maior quando a gente se separou. A gente viu que tinha que se ajudar, que cooperar um com o outro, porque não era sobre nós. Era sobre os nossos filhos. Era sobre sobreviver fazendo o que a gente gosta, que é muito difícil. Então, isso uniu a gente. E aí vai para outro lugar, né? Porque aí casei de novo e ele namora. Virou outra coisa. Acho que a gente nem pensa sobre isso. A Flora ficou doente, a gente se liga: "Como é que a gente vai fazer isso?" "Como é que a gente vai fazer aquilo?" "Vamos dar uma força para o nosso filho?". Aí, nosso filho foi embora para a Coreia um mês atrás e estava tão feliz por ele. Ele batalhou tudo sozinho. É uma realização tão louca da mãe que vê o filho ir. Mas, ao mesmo tempo, tem uma dor. A única pessoa para quem eu podia ligar era o meu ex-marido: "Caramba, o que é isso, cara? Você está sentindo isso?". "Estou, mas segura." Às vezes, eu falava: "Ai, eu não quero chorar na frente dele". "Não, segura a onda. Não, vamos chorar um pouco na frente dele. A gente gosta muito dele."
"É uma realização tão louca da mãe que vê o filho ir. Mas, ao mesmo tempo, tem uma dor"
Onde está a sua vaidade hoje?
Hoje está na minha saúde celular. Estou olhando para a saúde das minhas células. E na saúde física mesmo, na minha energia vital, que nunca esteve tão de bem. Às vezes a gente fica de mal com a nossa energia vital, e estou de bem com a minha energia vital, gosto dela. Falei desse jeito mais abstrato, mas, praticamente, adoro ir para a academia. Adoro me cuidar. Vou seis vezes na semana. E hoje fui gravar muito cedo e me senti meio gripada. Fui para a esteira, falei: "Vou pôr para fora essa pré-gripe. Não vou ficar gripada." Mas, para mim, é uma coisa do movimento. Parece que a energia vital está em movimento. Não estou precisando batalhar para colocar minha energia vital em movimento, que era uma coisa que acontecia quando eu tinha 20 anos. Eu era preguiçosa, sabe? (risos) Tudo era um sofrimento, e agora não, agora é natural. Então a minha vaidade está um pouco aí, no check-up anual, semestral que tenho que fazer. Está legal, está mostrando resultado e penso nisso.
Você descobriu que tem a síndrome de Li-Fraumeni. Como foi receber esse diagnóstico? É uma síndrome rara?
Ela não é rara, mas ainda faz parte de um exame de sequenciamento genético que não é gratuito. E deveria ser no Brasil. Não é acessível, mas existe uma luta para isso estar disponível no SUS para quem quiser fazer, porque não é todo mundo que vai querer, culturalmente também, por conta do medo. Ainda não existe a cura do câncer, mas existem movimentos que a gente pode fazer, que não são a cura, mas são prevenção.
Você fez esse exame de sequenciamento genético por conta da sua mãe [a síndrome de Li-Fraumeni é uma alteração no gene TP53 que predispõe o desenvolvimento de vários tipos de câncer. A mãe de Isabel, a também atriz Alexandra Corrêa, morreu aos 56 anos em 2006, em decorrência de múltiplos tipos de câncer]. Em algum momento teve medo de descobrir que tinha a síndrome?
Eu tive muito medo. Mas gosto de saber. Primeiro fiz o sequenciamento genético por medo. Porque quando a minha mãe morreu, eu tinha 33 anos e, desde os 33, tenho a mesma ginecologista e sempre pedi para ela, fui pedindo exames para ela. Falei: "Preciso fazer endoscopia, preciso fazer não sei o quê, preciso fazer não sei o que lá". "Minha mãe teve câncer em vários lugares, porque minha mãe não sei o quê." Uma hora a ginecologista falou: "Olha, fico te espetando aí, vamos fazer o sequenciamento". Quando eu soube que eu tinha o Li-Fraumeni, fiquei com muito medo. Mas fiquei com muito medo. Foi desesperador. Lembro que fui para o chuveiro chorando, mas com muito medo, e chorei muito, mas muito, sozinha. E aí, depois, uns dois dias depois, já me deu aquele negócio que é assim: "Bom, o que é que tem que fazer? Tem que fazer o quê?". E aí é o que eu sempre falo para minha filha: "Vai com medo mesmo, porque só quem tem medo produz coragem". É o medo que faz a gente ter coragem. Então, depois, fui fazer o que tinha que ser feito. Escolhi fazer isso. O livre-arbítrio está aí. Mas escolhi fazer isso porque é a minha personalidade. Quando escolhi fazer isso, a minha vida, desde cinco anos para cá, mudou para muito melhor. Mas para muito melhor por causa de hábitos.
"Parar de fumar foi tratar minha compulsão. Porque parei de beber e bebia bastante. Foram duas conquistas muito boas"
Você também fez uma cirurgia preventiva nas mamas, de retirada...
Fiz a cirurgia em duas etapas. Agora, isso já foi a fase três do jogo, porque a fase um é parar de fumar, parar de beber, reeducação alimentar, que é uma coisa que comecei a fazer em 2019, e ela é um aprendizado pela queda. Porque quem tem Li-Fraumeni não pode ter gordura no corpo. Principalmente quando entra na menopausa. Por quê? Porque o estrogênio cai, a gordura sobe e a gordura, neste caso, foi o que aconteceu com a minha mãe, ela é o que transporta as células cancerígenas pelo corpo. E, para mim, essa foi uma parte difícil, porque tive que tratar de uma compulsão. Parar de fumar foi tratar minha compulsão. A alimentação é o mais difícil. Foi muito difícil. Porque parei de beber e bebia bastante. Na França, era normal, bebia vinho todos os dias. E fumar, eu fumava muito. Foram duas conquistas muito boas, mas a reeducação alimentar é a mais lenta. Porque são hábitos muito arraigados, então tive que cuidar muito disso.
Que cirurgia você fez?
Tem um nome mais complexo o que fiz, porque a mastectomia é a retirada das mamas de um jeito. Eu fiz uma hiper-retirada e coloquei implante. Isso é uma prevenção porque, mulher 50 + com Li-Fraumeni, principalmente com meu histórico maternal, eu tinha 90% de chance de ter câncer de mama em cada mama, principalmente pelo meu histórico maternal. Então, tirei as duas mamas. Isso é o nível três, porque, claro, toca no feminino. Ao mesmo tempo, foi aí que saquei que a minha vaidade estava em outro lugar. E olha que essa cirurgia não é como uma cirurgia plástica de mama, que a cicatriz fica aqui embaixo. Ela é um pouquinho mais complexa e o que se faz no Brasil em relação a isso é altamente avançado esteticamente. Essa cirurgia que fiz é uma prevenção oncológica. No Brasil, ela é muito bem feita. Se pudesse, ficaria mostrando. Ia fazer topless, entendeu? (risos) No Brasil, para quem faz esse tipo de cirurgia, é ótimo. Agora, é uma cirurgia que as mulheres têm muito medo de fazer. Porque toca mesmo em um ponto que, para algumas pessoas, é superdelicado.
"Eu tinha 90% de chance de ter câncer de mama, então eu tirei as duas. No Brasil, ela é muito bem feita. Se pudesse, ficaria mostrando. Ia fazer topless"
Isabel Teixeira usa casaco e sapatos Maldito Paris — Foto: Lucas Nogueira
Como você está hoje, após o diagnóstico?
Hoje sou outra pessoa. Quem me conheceu sabe disso. Sou outra pessoa porque escolhi essa vaidade celular. Escolhi fazer o que tem que ser feito, porque a morte a gente não controla. Gosto tanto de viver. A minha irmã ontem falou para mim, a gente estava falando do nosso pai, que é muito saudável. Minha irmã falou assim: "Nosso pai gosta muito de viver." Eu falei: "Herdei isso, porque gosto muito de estar aqui, de celebrar cada dia." Porque quem perde depois que morre é a gente. E gosto de estar aqui com qualidade. Agora estou nessa fase, 52 anos. Sempre sou perguntada sobre o envelhecer. E o meu envelhecer está sendo um nascer de novo em um lugar melhor, em um corpo melhor. Em todos os sentidos
Você tem uma relação muito próxima com seu pai...
Muito! Aí me lembro lá de Ubatuba, que é o berço do meu pai. Ele é um jovem sonhador do interior, do litoral paulista. Era muito bom, porque a minha casa em Ubatuba, a casa dos Teixeira em Ubatuba, era todo mundo músico, cantava na igreja. As irmãs da minha avó, que eram muitas, todas cantavam no coral. Todo mundo da minha família, eu inclusive, tem violão em casa. Todo mundo aprendeu com a minha avó a tocar e cantar Dorival Caymmi. Todo mundo, inclusive meu pai. Era uma coisa cultural de Ubatuba. Meu bisavô, por exemplo, quando minha avó foi apresentar o meu avô para ele, falou assim: "Sabe tocar que música?". Cantar, tocar e conversar era uma coisa muito da casa. Ver novela também. Porque a casa lá de Ubatuba é centenária. Hoje em dia deve ter uns 160 anos. Foi uma das primeiras casas do centro de Ubatuba, está lá ainda, é da minha família ainda. E a gente viveu muito ali na infância. Eram três meses de férias. E lembro muito disso, todo mundo no portão às seis da tarde, e aí a conversa ia até onze da noite, o assunto não acabava. Eu falo: "Pai, vamos para o portão conversar?". Eu ligo para ele e a gente fica horas conversando, não acaba o assunto. Eu falo: "Parece que eu estou lá em Ubatuba".
É verdade que você tem medo de avião?
Imagina. Eu fazia ponte aérea no Oceano Atlântico uma época. Sempre com muito pânico. Era sempre um problema. Sempre no sofrimento. Hoje em dia sou curada pelo Lito [Sousa]. E nem tive a aula com ele. Comecei a ver as postagens dele, que me ajudou de graça, porque não tinha acesso às aulas dele. Só vendo as postagens e seguindo ele, vendo o material que ele distribuía gratuitamente, fui perdendo o medo de voar.
O que você vai fazer depois da novela?
Não vou emendar uma novela na outra (risos). Mas tenho peça para fazer em 2027. Termino a novela e já começo a ensaiar a peça. Também vou fazer outro monólogo agora. Quero fazer bastante teatro. E tem uma possibilidade de eu dirigir uma peça assim que acabar a novela. Essa, como atriz, é direção do Miguel Thiré, que foi quem dirigiu O Figurante. O texto é nosso. Acho que eu dou uma visitadinha no meu filho e depois já começo a ensaiar. Mas parar, nunca. E aí volta a editora. Porque a editora só depende de mim. Estou fazendo algumas experiências. Mas não vou contar agora. Mas gosto tanto de gravar novela. Gosto tanto, mas também adoro ensaiar teatro. E com o Miguel, que mora em Portugal, vai ter uma coisa da gente ensaiar um pouco no Rio, um pouco em Lisboa, um pouco em São Paulo, para estrear no meio do ano que vem. Estava pensando outro dia nessa adrenalina, sabe? Da obra aberta, de você receber os capítulos, isso que falei que faço, que é todo um sistema. Fora o set. E trabalhar com a Amora é meio o auge, é o brinquedão.
Você e Amora Mautner deram muito certo juntas. O que existe nessa parceria?
A gente se animou, foi uma coisa de encontro de ânima. Gosto muito de ser dirigida. Tenho parcerias históricas, com a Cibele Forjaz, com a Christiane Jatahy, que eu adorava ser dirigida por ela. Inclusive, a Christiane Jatahy nunca deixou de ir a um espetáculo. Fiquei oito anos fazendo uma peça com ela. Quando ela não ia, eu falava: “Não, você não pode não vir, porque eu gosto”. Foram duas vezes que ela não foi, em oito anos. A gente fazia duas sessões por dia de E Se Elas Fossem para Moscou?, entre uma e outra, eu ficava esperando ela vir. Para discutir, uma coisa que só diretor tem no olho. O Marcos Caruso, que me dirigiu em Jandira, foi o meu grande presente, de encontro com um grande diretor de ator. E a Amora, tenho isso com ela. Adoro ser dirigida em televisão porque mudam os diretores. Cada dia você está com um e adoro entender qual é a daquele diretor, se ele é mais do quadro, se é mais da luz, se é mais do ator. E a Amora é mais do ator. O set dela é muito divertido. Ele é muito dinâmico, mas com muita ordem, porque ela sabe muito o que ela está fazendo. Pensei: "Vou sentir falta dessa adrenalina quando a novela acabar". Então, quero fazer trabalhos que me deem essa adrenalina. Vou voltar para o artesanal da editora e da sala de ensaio. Também vou fazer um monólogo com Miguel Thiré e quero viajar pelo Brasil. Tenho vontade de passar pelas capitais, mas também por teatros pequenininhos, centenários, em cidades como Penedo e Ouro Preto. Quero levar teatro para o Brasil todo. E, ao mesmo tempo, pegar fôlego para depois fazer outra novela. Entre Volta por Cima e Quem Ama Cuida, tive uma crise de abstinência. Não parei de trabalhar, mas sentia saudade desse dia a dia. Quando voltei, pensei: "Vai começar tudo de novo, que delícia". E é uma delícia mesmo.
Créditos:
Texto: Carla Neves (@cpdasneves)
Fotos: Lucas Nogueira (@thenogueira)
Styling: Patrick Doering (@patrickdoering)
Beleza: Leo Almeida (@leoalmeidamk)
Diretora de redação: Camila Borowsky (@camila_borowsky)
Produção executiva: Mateus Phyno (@phynocomph_)
Edição: Ana Carolina Moura (@anacmoura)
Vídeos: Eduardo Garcia (@eduardogarda)
Assistência de fotografia: Felippe Costa (@felippescosta)
Assistência de styling: Lee Oliveira (@leeoliveira)
Assistência de beleza: Daniel Fabrício
Design de capa: Bárbara Garcia (@babi_troncoso)
Agradecimentos: Sheraton Grand Rio Hotel (@sheratonrio)
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