Matheus Leitão

Desgastado nas urnas e cobiçado pelo PL, Hugo Motta pode virar o contrapeso de um eventual governo Flávio com o Congresso inteiro nas mãos

Matheus Leitão
16/10/2026 09:57
LUIS NOVA/ESPECIAL METRÓPOLES @LuisGustavoNova
No primeiro dia de fevereiro de 2025, a Câmara parecia ter encontrado sua nova estrela. Hugo Motta tinha 35 anos, fala mansa de médico do interior e uma votação que impressionava até os veteranos. Foram 444 votos, a segunda maior marca desde a redemocratização, com apoio de 18 partidos. Indicado por Arthur Lira, bem tratado por Fernando Haddad, parabenizado por Lula, ele foi eleito por um daqueles blocos que só Brasília sabe fabricar, reunindo o PT do governo e o PL da oposição, com o PP de Arthur Lira e Ciro Nogueira costurando o meio.
O discurso de posse foi preparado durante dois meses. Durou vinte minutos, citou Ulysses Guimarães 14 vezes e a palavra democracia 28. E terminou com um gesto que ficou na memória de quem estava no plenário. Motta ergueu um exemplar da Constituição, como Ulysses fizera em 1988, e repetiu a frase do velho comandante sobre ódio e nojo à ditadura. Houve ainda um trecho curioso para quem acompanha a teoria de Sérgio Abranches. O novo presidente chamou o presidencialismo de coalizão de eufemismo de nome pomposo e funcionamento perverso, e descreveu o toma lá dá cá como uma espécie de arrendamento do Legislativo pelo Executivo. Era um jovem prometendo independência. O plenário aplaudiu de pé.
Agradar a todos tem preço
O problema de quem chega com apoio de todos os lados é que cada lado acha que tem crédito a cobrar. E Motta passou o mandato pagando ora a um, ora a outro.
A primeira grande fratura veio com o decreto que aumentou o IOF. Em maio de 2025, ele e Davi Alcolumbre deram dez dias para o governo apresentar alternativa ao aumento do imposto, cobrando o fim das gambiarras tributárias. Houve conversa, houve acordo com Haddad, houve medida provisória negociada. Até que, em 25 de junho, Motta pautou de surpresa a derrubada do decreto e pegou desprevenidos o Planalto, os governistas e até a oposição. Nos bastidores, contou-se que o gatilho foi uma fala de Haddad num encontro do grupo Prerrogativas, onde o ministro teria chamado o presidente da Câmara de infantil. Haddad nega. A intriga, porém, já tinha feito o estrago. O governo levou uma derrota acachapante.
O troco veio pelas redes. Uma campanha de memes e vídeos colou em Motta expressões como inimigo do povo, amigo dos ricos e Eduardo Cunha 2.0. A hashtag #InimigosDoPovo passou de 300 mil menções a partir do dia da votação. O jovem aplaudido em fevereiro virou, em julho, o rosto dos privilégios do Congresso. Até a ministra Gleisi Hoffmann precisou sair em sua defesa. O caso foi parar no Supremo, onde Alexandre de Moraes reconheceu a legitimidade do decreto, mas também o direito do Congresso de sustá-lo. Ninguém saiu inteiro.
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Se a esquerda o tratava como inimigo, a direita resolveu tratá-lo como obstáculo. Em agosto de 2025, depois da prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, a oposição ocupou a Mesa Diretora da Câmara por quase dois dias. Foi um dos episódios mais tristes que os corredores da Casa já viram. Marcos Pollon sentou na cadeira da Presidência, Zé Trovão usou o corpo para barrar o acesso, e Marcel van Hattem, um dos líderes da ocupação, ficou no assento ao lado. As imagens mostram Motta se aproximando da Mesa, recuando diante do espaço tomado e só conseguindo chegar à cadeira empurrado por aliados. O presidente da Câmara, segundo na linha sucessória da República, precisou de escolta para sentar no próprio lugar.
O Conselho de Ética levou nove meses, mas respondeu. Em maio de 2026, aprovou 60 dias de suspensão para Van Hattem, por 13 votos a 4. Cinco meses depois, o mesmo Van Hattem foi eleito senador pelo Rio Grande do Sul, com cerca de 30% dos votos válidos, prometendo pressionar pelo impeachment de Moraes e colocar o Supremo no seu lugar. Na política brasileira de 2026, a truculência não só deixou de ser punida pelas urnas. Foi premiada por elas.
Setembro trouxe outro tropeço, desta vez por conta própria. Motta pautou na mesma semana a PEC da Blindagem, que dificultava investigações contra parlamentares, e a urgência da anistia aos condenados do 8 de janeiro, exigida por bolsonaristas em troca da devolução da cadeira.
A reação nas ruas foi imediata. Em dezembro, veio o pior momento. Na sessão que aprovou o PL da Dosimetria, o deputado Glauber Braga ocupou a cadeira da Presidência em protesto contra a própria cassação e foi retirado à força pela Polícia Legislativa, enquanto o sinal da TV Câmara era cortado e jornalistas eram retirados do plenário. O líder do PT, Lindbergh Farias, disse que Motta estava perdendo condições de presidir a Casa.
Nos corredores, formava-se um consenso de que seria praticamente impossível ele se reeleger. Tinha conseguido, no mesmo ano, brigar com a esquerda e ser humilhado pela direita.
A virada
Foi aí que o jovem presidente fez o movimento mais inteligente de sua gestão. Em vez de escolher um lado para brigar, escolheu um lado para governar. A indicação de seu aliado Gustavo Feliciano para o Ministério do Turismo foi lida como aceno de Lula e abriu caminho para a reaproximação. Na antevéspera do Natal de 2025, Motta foi ao Planalto para a cerimônia que reconheceu a cultura gospel como patrimônio, disse-se honrado de dividir o momento com Lula e distribuiu elogios.
Não foi conversão súbita. Ainda em outubro, ele já tinha entregado ao governo uma de suas maiores vitórias. A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, promessa de campanha de Lula, passou na Câmara por 493 votos a zero.
Em 2026, a parceria se aprofundou. Em janeiro, Motta ainda falava em esperar gestos e reciprocidade antes de apoiar a reeleição do presidente. Em agosto, anunciou o apoio, e Lula, em troca, se comprometeu a apoiar sua recondução ao comando da Câmara se vencesse em outubro. Junto com Alcolumbre, o presidente da Câmara passou a fechar com o Planalto a agenda de votações do esforço concentrado antes das eleições.
E foi justamente essa ponte que lhe devolveu o prestígio entre os pares. O Congresso impôs um calendário de pagamento prioritário de emendas no primeiro semestre, e Lula sancionou. Resultado, R$ 33,89 bilhões pagos até 4 de julho, véspera do defeso eleitoral, recorde absoluto para um período pré-eleitoral. Para um deputado em campanha, isso vale mais do que qualquer discurso.
Motta pode ter perdido a simpatia do eleitor nas redes, mas recuperou a gratidão de quem vota na eleição que mais lhe interessa, a da Mesa.
A conta que a Paraíba cobrou
A aproximação com Lula tinha um objetivo declarado em casa. Motta queria o apoio do presidente para eleger o pai, Nabor Wanderley, ao Senado. Não conseguiu. Em junho, Lula declarou apoio a João Azevêdo e a Veneziano Vital do Rêgo para as duas vagas da Paraíba. Nabor chegou a ser vaiado na convenção do PT em João Pessoa, mesmo reafirmando lealdade ao presidente.
O desenho da eleição paraibana foi cruel. A chapa governista juntava Lucas Ribeiro para governador, filho da senadora Daniella Ribeiro e sobrinho de Aguinaldo Ribeiro, e João Azevêdo e Nabor para o Senado. Daniella, aliás, era a suplente de Nabor. O grupo de Motta apoiou Lucas, que venceu no primeiro turno com 64,34%. Azevêdo foi o senador mais votado do estado. Veneziano, o candidato para quem Lula pedia votos em paralelo, ficou com a segunda vaga. Nabor terminou em terceiro, com 20,89%, apesar do apoio de mais de 170 prefeitos. Hugo foi o único derrotado da chapa que ajudou a montar.
O próprio Motta sentiu o golpe. Mais votado da Paraíba em 2022, com 158.171 votos, caiu para 124.339 em 2026, uma perda de 21,4%, e despencou para o quinto lugar no estado. Reeleito, sim. Mas menor.
O PL já mede as cortinas
Enquanto isso, o mapa de Brasília mudou de cor. O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um partido desde a Constituição de 1988, e terá 28 senadores, também a maior bancada do Senado. Se o atual favorito Flávio vencer, terá ao lado, além do PL, a federação União Progressista, de PP e União Brasil, que decidiu apoiá-lo no segundo turno, o Novo de Van Hattem, o apoio de Ronaldo Caiado e o do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, partido do próprio Motta.
Com esse tamanho, o PL passou a discutir abertamente a sucessão na Câmara como se a faixa presidencial já estivesse no armário. Aliados de Flávio querem tirar Motta da cadeira em fevereiro de 2027, e dois nomes disputam a vaga. Altineu Côrtes, atual primeiro vice-presidente da Câmara, pertence à ala moderada do partido e já foi acusado pelos bolsonaristas mais duros de flertar com o governo. Sóstenes Cavalcante é o oposto. Pastor da Assembleia de Deus, interlocutor de Silas Malafaia, ganhou projeção nacional com o projeto que equiparava o aborto após 22 semanas a homicídio e liderou a pressão pela anistia aos condenados do 8 de janeiro. Um é o PL que negocia. O outro é o PL que marcha.
O balizador improvável
E é aqui que a história dá uma volta irônica. O jovem que o PT chamou de inimigo do povo e que a direita expulsou da própria cadeira pode ser, a partir de 2027, a peça que impede o desequilíbrio da República.
Os números ajudam. O PSD, pela voz do líder Antonio Brito, já declarou apoio à reeleição de Motta. O bloco que o sustenta deve somar cerca de 245 deputados, e com a federação do PT, que elegeu 88, a conta passa da maioria. O Republicanos, por sua vez, foi pedir ao próprio Flávio que trabalhe pela manutenção de Motta caso vença. É uma posição rara, a de quem é útil a Lula se Lula vencer e necessário å democracia se Flávio vencer.
Imagine o cenário em que Flávio ganha. Presidente, maioria na Câmara, maioria no Senado e, se Jair for solto, um ex-presidente com influência difícil de medir. O candidato já disse que o Congresso está configurado para um presidente como ele e listou as mudanças constitucionais que pretende fazer. Uma reforma do Judiciário, a redução da maioridade penal, o fim da reeleição e alterações na reforma tributária, que ele chegou a prometer suspender por um ano, inclusive no mecanismo de split payment. A PEC do fim da escala 6×1, que avança no Senado, virou outro terreno de disputa, e Flávio mudou de posição na reta final para dizer que votará a favor, mas que irá mudar quando for presidente.
No Senado, Van Hattem já avisou que começará o mandato pedindo o impeachment de Gilmar Mendes e de Moraes. O impeachment de ministros é assunto do Senado, e ali Motta não manda. Mas nenhuma mudança na Constituição passa sem a Câmara. Toda PEC precisa de 308 votos em dois turnos, e quem decide o que vai à pauta, quando vai e em que ritmo é o presidente da Casa.
Um presidente da Câmara alinhado ao Planalto transforma maioria em rolo compressor. Um presidente independente transforma maioria em negociação. A diferença entre as duas coisas é exatamente o que Abranches chamava de equilíbrio.
E se Lula vencer
Se o resultado de 25 de outubro for outro, a história de Hugo Motta muda de gênero. Deixa de ser a crônica de um sobrevivente e vira a de uma ascensão.
Com Lula reeleito, o compromisso firmado em agosto entra em vigor. O PT, com seus 88 deputados, soma-se ao bloco do centro, e Motta chega a fevereiro como favorito para mais dois anos na cadeira. Mas a reeleição seria só o começo. Um Lula no quarto mandato vai governar diante do Congresso mais à direita desde a redemocratização, com o PL dono de quase um quarto da Câmara e uma oposição que já encosta nos quóruns mais perigosos da República.
Nesse cenário, o presidente da Câmara deixa de ser apenas o síndico da Casa. Vira o fiador da governabilidade.
É ele quem decide se aceita ou engaveta um pedido de impeachment contra o presidente da República. É ele quem segura ou libera as PECs que a oposição vai apresentar para encurtar o poder do Planalto, inclusive uma eventual tentativa de emplacar o semipresidencialismo. É ele quem negocia com o governo o tamanho das emendas e o calendário de pagamento. É ele, enfim, quem transforma uma maioria hostil em maioria possível.
Abranches descreveu o presidencialismo de coalizão como um sistema em que o presidente depende de quem controla o Congresso. Num governo Lula com esse Congresso, quem controla a Câmara passa a ser o segundo homem mais poderoso do país, e talvez, em certos dias, o primeiro.
A ironia é que o papel caberia como uma luva no discurso de posse. Motta prometeu acabar com o arrendamento do Legislativo pelo Executivo. Com Lula fraco no Congresso e dependente dele, a promessa se cumpre quase por gravidade. O Planalto teria de negociar de igual para igual, ministério por ministério, pauta por pauta, e o interlocutor seria um paraibano de 37 anos que já mostrou saber dizer não ao governo e sim ao governo, conforme o dia.
Há ainda o horizonte. Lula não poderá disputar outra eleição em 2030, e a sucessão abrirá um vácuo no centro político. Um presidente da Câmara que atravesse quatro anos como ponte entre um governo de esquerda e um Congresso de direita sai do cargo com um capital que poucos políticos brasileiros acumularam tão cedo. O governo da Paraíba, uma cadeira no Senado ou um ministério de peso passam a ser destinos naturais. E não seria exagero imaginar o nome dele circulando nas conversas sobre a vice de alguma chapa nacional. A derrota do pai em 2026 pesaria menos. Em política, quem vira indispensável costuma ter direito a revanche.
O risco existe, claro. Ser o fiador de um governo minoritário é também ser o primeiro alvo quando a crise chega, e a oposição vai cobrar caro cada pauta que ele segurar. Mas para quem sobreviveu ao inimigo do povo e ao motim da Mesa, o risco parece parte do ofício.
O gesto que pode virar profecia
Talvez o gesto de fevereiro de 2025 tenha sido mais profético do que parecia. Motta ergueu a Constituição num plenário que o aplaudia quase por unanimidade. Ganhe quem ganhar, pode ter de defendê-la num plenário em que metade quer reescrevê-la. Naquele dia, ele disse que o presidencialismo absoluto morrera com a Carta de 1988. Se Flávio vencer, caberá a ele provar que não ressuscitou. Se Lula vencer, caberá a ele provar que o Congresso pode ser forte sem deixar o país ingovernável.
Hugo Motta errou bastante em dois anos. Pautou o que não devia, brigou com quem não precisava, deixou a cadeira ser tomada e depois mandou arrancar quem a tomou. Mas aprendeu o ofício na prática, que é o único jeito de aprender política em Brasília. Sobreviveu ao inimigo do povo, ao motim da Mesa, à derrota do pai e à queda nas urnas. Chega a 2027 menor do que entrou, mas mais experiente, mais necessário e, quem diria, com mais aliados do que inimigos entre os únicos eleitores que importam para o cargo. Em fevereiro, a Câmara vai decidir se quer um presidente que obedece ou um presidente que equilibra. O jovem de 2025 queria agradar a todos. O de 2027 talvez precise apenas cumprir o que prometeu com a Constituição na mão.


