Contratada para instalar internet em áreas pobres da cidade, Ultra acusa empresária de descumprir acordos

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A Ultra IP Tecnologia e Serviços, contratada pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), pertencente à empresária Karina Ferreira da Gama, para atuar na implantação e manutenção do programa Wi-Fi Livre de São Paulo, questiona na Justiça pagamentos feitos a outras empresas que trabalharam no mesmo projeto. A companhia afirma ter instalado 3,2 mil pontos de internet e pede acesso a notas fiscais e relatórios de outos fornecedores para verificar se receberam por serviços que diz ter executado. A Ultra cobra R$ 4,5 milhões do ICB na Justiça.
- ICB alegou 'desconfiança nas comunidades' para justificar cobrança antecipada em contrato em SP
As informações fazem parte de um lote de cerca de 5 mil páginas da investigação da Polícia Civil de São Paulo que teve o sigilo retirado neste domingo (13) pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). O material está relacionado à apuração sobre o financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Dino também determinou o envio das provas reunidas pela polícia paulista à Polícia Federal.
O contrato firmado entre o ICB e a Prefeitura de São Paulo começou a ser investigado pela Polícia Civil de São Paulo por suspeitas de fraudes, desvios de recursos públicos e irregularidades na prestação dos serviços. O programa é executado pelo ICB por meio de um termo de colaboração firmado com a Prefeitura de São Paulo. Para atuar na implantação, operação e manutenção da rede, o instituto contratou a Ultra em junho de 2024 por R$ 30,776 milhões. O contrato previa inicialmente 5 mil pontos do Wi-Fi Livre em comunidades da capital paulista. O ICB é presidido por Karina Ferreira da Gama, sócia-administradora da Go Up Entertainment, produtora responsável por “Dark Horse”.
O ICB foi contratado para garantir 5 mil pontos de acesso em áreas de vulnerabilidade social. O valor inicial do contrato era R$ 108 milhões. Em junho de 2025, um termo aditivo acertou o pagamento antecipado de R$ 69,1 milhões por 3.200 pontos.
A divergência sobre a execução do contrato com a Ultra aparece nos documentos tornados públicos neste fim de semana. Em janeiro de 2025, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) comunicou ao ICB a readequação do programa para 3.200 pontos. Um documento anexado aos autos afirma que 2.297 deles se referiam ao contrato original da Ultra.
Uma minuta de distrato utiliza os 2.297 pontos para calcular R$ 1,963 milhão por serviços de readequação da rede e desinstalação de equipamentos, o equivalente a R$ 852,44 por ponto. O documento descreve expressamente os 2.297 como pontos “instalados pela contratada”.
A Ultra contesta essa conta. Em réplica apresentada à Justiça, afirma que registros de WhatsApp comprovariam a execução de 3.200 pontos pela companhia. Afirma ainda que a redução de seu escopo para 2.297 pontos teria servido para justificar pagamentos a terceiros.
É para tentar sustentar essa alegação que a empresa pede acesso a relatórios e notas fiscais do ICB e de outros fornecedores. A petição cita Orbis, Talkis, Favela Conectada, Complexys e Fastfuture e afirma que pretende saber se essas empresas “receberam pelos 3.200 pontos” e se “realmente prestaram ou não o serviço pelo qual foram contratados”.
A Ultra também quer identificar quanto foi pago por cada ponto que teria sido transferido para outras empresas. Na petição, sustenta que todos os pontos foram instalados por ela e que, posteriormente, seria necessária apenas a manutenção da rede.
Entre as empresas citadas está a Favela Conectada, ligada a Alex Leandro Bispo dos Santos. Reportagens juntadas aos autos informam que a empresa firmou contrato de R$ 12 milhões com o ICB para atuar no Wi-Fi Livre nas zonas oeste e sul da cidade. O acordo previa atuação em 2 mil pontos e serviços que incluíam expansão da rede, monitoramento e manutenção.
Na réplica, a Ultra afirma que os serviços pagos à Favela Conectada teriam sido, “em realidade”, executados pela própria companhia. A alegação se apoia também em reportagens anexadas ao processo e não representa uma conclusão da Justiça.
A disputa financeira entre as duas partes vai além do número de pontos. A Ultra calcula ter mais de R$ 4,5 milhões a receber do ICB e acusa o instituto de ter apresentado propostas de distrato com cálculos diferentes. Segundo a empresa, uma primeira minuta apontava uma dívida de R$ 8,3 milhões da Ultra, enquanto outra teria alterado datas e valores unitários para zerar o crédito que a companhia afirma ter a receber.
O que dizem o ICB e a Prefeitura de São Paulo
O ICB contesta as acusações. Nos autos, o instituto se opõe à entrega de parte dos documentos solicitados e argumenta que o pedido da Ultra alcança informações financeiras e contratos de terceiros que não seriam necessários para a produção antecipada de provas.
O instituto também acusa a Ultra de descumprimento contratual. Em notificação extrajudicial, afirma que a companhia determinou a interrupção de aproximadamente 800 links de internet em setembro de 2025. Diz ainda ter pago integralmente os valores correspondentes aos pontos instalados e sustenta que a Ultra acumulava mais de dois meses de atraso com provedores de acesso.
Procurada, a Prefeitura de São Paulo afirmou que não identificou irregularidades na assinatura ou na execução do termo de colaboração com o ICB. Segundo a administração municipal, o Wi-Fi Livre segue em funcionamento com 3,2 mil pontos instalados e mais de 760 milhões de acessos registrados.
A prefeitura disse ainda que o serviço contratado foi prestado e que a parceria é submetida a prestações de contas semestrais, periodicidade que classificou como mais rigorosa que o mínimo previsto em lei. A administração municipal afirmou que as movimentações financeiras do ICB não integram sua relação contratual com a entidade.
Página inicial do site do Instituto Conhecer Brasil, ONG ligada à empresária Karina Ferreira Gama, produtora do filme sobre Jair Bolsonaro — Foto: Reprodução
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