A carioca fala sobre como aprendeu a reconhecer o valor comercial da própria imagem, administrar a ascensão financeira e transformar a confiança construída com o público em autoria e participação nos negócios

Camilla de Lucas — Foto: Hudson Rennan (FSag) (FSag)

Quando começou a criar conteúdo na internet, em 2017, Camilla de Lucas não estava pensando em ganhar dinheiro. “Comecei querendo me comunicar com outras meninas”, lembra. A ideia era compartilhar opiniões e experiências, especialmente sobre questões de beleza que atravessavam a vida de mulheres negras. No YouTube, encontrou uma audiência disposta a ouvi-la – e, antes de entender que aquilo poderia se transformar em profissão, construiu uma relação de confiança com sua comunidade. “Demorei para entender que minha imagem era um negócio”, diz.

A mudança de escala veio aos poucos. Em 2021, Camilla entrou no Big Brother Brasil e deixou o programa como vice-campeã. Depois do reality, seu rosto passou a ocupar outros espaços: capas, editoriais, campanhas e trabalhos nos quais, muitas vezes, sua imagem aparecia antes de sua voz. Foi nesse movimento que ela começou a perceber o valor que aquela imagem havia adquirido. Hoje, aos 31 anos, reúne 8,4 milhões de seguidores no Instagram e construiu uma carreira que ultrapassa a lógica de simplesmente produzir conteúdo para a internet.

Camilla de Lucas — Foto: Hudson Rennan (FSAG)

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O modo como enxergava a própria aparência, no entanto, nem sempre foi confortável. Camilla foi alvo de bullying e racismo por causa do cabelo e da cor da pele. A experiência deixou marcas. Ela conta que nunca se enxergou como uma referência absoluta de beleza, embora hoje se considere bonita. A relação com o espelho, para ela, passou a ser menos sobre corresponder ao olhar externo e mais sobre reconhecer como quer se apresentar. “Beleza, para mim, é estar feliz como eu quero ser”, resume.

Se a aparência ganhou espaço em sua trajetória, foi a relação com a audiência que sustentou a passagem de uma fase para outra. Camilla não identifica uma fórmula para permanecer relevante na internet. Para ela, o mais importante é construir uma identidade capaz de fazer com que as pessoas queiram continuar acompanhando sua história, incluindo sua ascensão social.

Camilla vive hoje uma realidade diferente daquela de quando começou a produzir conteúdo, e precisou aprender também a administrar o dinheiro que passou a ganhar. Ela mantém três contas em corretoras e tem o apoio de assessores para ajudá-la nos investimentos, mas continua fazendo questão de entender profundamente as decisões antes de tomá-las. “Aprendi muita coisa sozinha. Sempre fui de pesquisar e entender tudo antes de agir.”

Camilla de Lucas — Foto: Hudson Rennan (FSAG)

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A mudança de condição financeira não significou abandonar a relação que construiu com o público. Segundo ela, em nada mudou a responsabilidade de falar sobre aquilo que de fato conhece. “A transparência ao testar e apresentar um produto tem que permanecer, independentemente do estilo de vida que eu esteja vivendo.”

É também a partir dessa nova posição que Camilla passou a olhar para o mercado de beleza de outra maneira. A inspiração para transformar sua própria imagem em produto veio, em parte, de Rihanna e da criação da Fenty Beauty. “Não foi só o impacto de mais uma marca boa no mercado. Tinha a história dela ali”, diz. A ideia de criar algo que carregasse a identidade de quem estava por trás do produto ficou como referência. “Passou a ser um sonho ter algo tão proprietário.” Camilla encontrou no cabelo o território para construir algo próprio. “Não tem nada que eu domine mais do que cabelo”, afirma.

Foi nesse contexto que surgiu a aproximação com a Kolene, marca da qual já era embaixadora. O convite poderia ter resultado apenas em uma linha assinada por ela, mas Camilla queria participar de maneira mais assertiva. Não bastava simplesmente escolher produtos já existentes e colocar seu nome neles. Desejava sugerir e acompanhar o desenvolvimento. A colaboração deu origem à linha Nutri Bond e levou Camilla ao quadro societário da empresa. “Entrei como sócia não só da linha, mas da marca como um todo”, explica.

Camilla de Lucas — Foto: Hudson Rennan (FSAG)

A mudança de posição também significou entrar em contato com uma dimensão do negócio que não fazia parte de sua rotina como criadora de conteúdo: reuniões com times da fábrica e administrativos, decisões, desenvolvimento de produtos e acompanhamento de resultados. “Faturamento e tudo mais” passaram a fazer parte das conversas. A experiência também aproximou Camilla do que acontece após o produto chegar às prateleiras. Segundo ela, sua linha se tornou a mais vendida da marca até ali e o desempenho levou à decisão de ampliar a família com novos produtos.

Parte desse desenvolvimento veio das próprias consumidoras: Camilla conta que cerca de 65% das novas propostas foram baseadas no que o público pediu. Ela também visita lojas e conversa diretamente com clientes para entender como os produtos estão sendo recebidos. Para a empresária, a sociedade representa justamente uma mudança de influência: deixar de apenas emprestar o rosto a uma campanha para participar das decisões que fazem um produto existir.

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Camilla de Lucas — Foto: Hudson Rennan (FSAG)
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Esse movimento também ampliou sua percepção sobre a presença de mulheres negras no mercado de beleza e na chamada creator economy. Camilla passou a observar quantas marcas trabalham com mulheres negras e quantas criadoras conseguem, de fato, transformar sua influência em produtos e negócios próprios.
Para quem começou querendo apenas conversar com outras meninas, a trajetória ganhou escala e se desdobrou em audiência, televisão, cinema, dinheiro e investimentos. A confiança do público é o principal ativo da trajetória de Camilla. Foi o que deu valor comercial à sua imagem e agora também orienta o desenvolvimento de produtos. A escala mudou, mas é a permanência dessa escuta que continua a dar consistência – e significado – ao negócio.
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